Greve da Caixa: TST decide nesta terça (29)
A greve dos empregados da Caixa Econômica Federal chega nesta terça-feira (29) a um ponto decisivo, com o julgamento do dissídio coletivo pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST), previsto para as 14h30. Iniciada nacionalmente em 10 de setembro, a paralisação já produz efeitos que ultrapassam o atendimento nas agências e começam a pressionar setores dependentes da capacidade de crédito e de execução operacional do banco, principalmente o mercado imobiliário e a construção civil.
Desde segunda-feira (28), as agências da Caixa passaram a operar parcialmente por determinação do TST. A decisão do ministro Maurício Godinho Delgado estabeleceu que pelo menos 60% dos empregados permaneçam em atividade em cada agência, presencialmente ou de forma remota. O descumprimento da determinação pode resultar em multa diária de R$ 100 mil para a entidade sindical responsável. A medida, entretanto, não encerra a greve, que permanece em vigor até uma definição no dissídio.
O impacto econômico mais sensível está no crédito imobiliário. Dados levantados com base no ritmo de contratações do primeiro semestre indicam que, nos 13 dias úteis de paralisação considerados até a última sexta-feira, cerca de 49 mil financiamentos poderiam ter ficado pendentes. O cálculo parte de 511 mil financiamentos imobiliários formalizados pela Caixa nos primeiros seis meses do ano, média equivalente a 4.089 contratos por dia útil.
A estimativa não significa que todos esses contratos estejam efetivamente parados. A própria Caixa afirma que as contratações de crédito imobiliário continuam disponíveis por canais digitais e por correspondentes parceiros, além de informar que as vistorias de imóveis seguem o cronograma. Na prática, porém, profissionais do setor relatam atrasos em etapas que dependem de análise documental, conformidade, assinatura e liberação dos recursos.
A dimensão do problema está relacionada à posição da Caixa no mercado habitacional brasileiro. O banco concentra quase 70% dos financiamentos imobiliários do país e sua carteira de crédito habitacional ultrapassou R$ 1 trilhão. Com esse nível de participação, interrupções ou atrasos operacionais tendem a produzir efeitos sobre toda a cadeia — do comprador e vendedor às imobiliárias, construtoras, correspondentes bancários e fornecedores.
Efeito chega às construtoras
Na construção civil, os reflexos aparecem tanto na contratação de novos financiamentos quanto na liberação de recursos para empreendimentos já contratados. Em Goiás, o prolongamento da paralisação preocupa empresas que dependem do fluxo financeiro da Caixa para manter cronogramas de obras e pagamentos.
O presidente da Federação Nacional das Pequenas Construtoras (Fenapc), João Victor Ribeiro, afirmou que a paralisação representa um dos movimentos de maior impacto para o setor nas últimas duas décadas e apontou prejuízos crescentes para a construção civil goiana. O material reunido para esta reportagem também registra que novos contratos foram afetados e que há dificuldades em medições e pagamentos de contratos já firmados.
O efeito tende a ser particularmente relevante em operações vinculadas ao Minha Casa, Minha Vida, segmento no qual a Caixa possui participação central. A interrupção de etapas burocráticas pode postergar a entrega dos recursos, afetar o fluxo de caixa das empresas e aumentar o intervalo entre a venda do imóvel e a efetiva liberação do financiamento.
Para o comprador, o problema pode aparecer em diferentes momentos. A análise de documentos, a conferência das informações do imóvel, a elaboração e assinatura do contrato e a liberação do dinheiro são etapas que podem sofrer atrasos, mesmo quando parte do processo já foi concluída.
Caixa tenta preservar operações pelos canais digitais
A instituição orienta os clientes a utilizar canais digitais e alternativas de atendimento durante a paralisação. Entre as opções estão o aplicativo e o site da Caixa, Caixa Tem, terminais de autoatendimento, lotéricas, correspondentes Caixa Aqui e Banco24Horas. Também estão disponíveis aplicativos específicos para cartões, habitação e FGTS, além do WhatsApp Caixa e do serviço Alô Caixa.
A Caixa informa que pagamentos de benefícios sociais, operações relacionadas ao FGTS e outros serviços continuam sendo realizados pelos canais disponíveis. No crédito imobiliário, o banco afirma que as contratações permanecem acessíveis pela plataforma digital de habitação e pela rede de correspondentes parceiros.
A diferença entre a disponibilidade formal do serviço e a capacidade de processamento das operações, contudo, é relevante para medir o impacto econômico da greve. Parte das etapas pode ser digitalizada, mas determinados procedimentos ainda dependem de análise e atuação de equipes internas
Impasse envolve acordo coletivo e Saúde Caixa
A origem da paralisação está no impasse entre a Caixa e seus empregados para a renovação do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT). O principal ponto de divergência envolve o Saúde Caixa, plano de assistência médica dos trabalhadores.
Uma nova proposta apresentada pelo banco foi rejeitada pelos empregados em assembleia. Entre as mudanças discutidas estava a elevação da participação máxima da instituição no financiamento do plano, de 6,5% para 9% da folha de pagamento a partir de 2027.
A Caixa levou o conflito ao TST por meio de dissídio coletivo depois de sucessivas rodadas de negociação sem acordo. Uma tentativa de mediação realizada em 23 de setembro terminou sem consenso.
Segundo informações divulgadas pela representação dos trabalhadores, mais de 90% das bases sindicais haviam rejeitado proposta anterior. A categoria sustenta que pontos centrais do Saúde Caixa não poderiam ser definidos unilateralmente pela instituição.
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